A ciência por trás da felicidade #3 - E afinal?
Ora, vejamos. Se ter um bom emprego, muito dinheiro, coisas incríveis, amor verdadeiro e o corpo perfeito não impactam verdadeiramente a nossa felicidade, o que é que fazemos? Afinal, o que é que temos de fazer para sermos felizes?
Uma coisa é certa. Todos os estudos que apresentei não foram feitos com as mesmas pessoas, e se um indivíduo tem muito dinheiro mas não tem um corpo perfeito, pode ser que seja infeliz por isso. Se algum dos leitores conhecer alguém que tenha um bom emprego, muito dinheiro, coisas incríveis, amor verdadeiro e o corpo perfeito, avise-me, porque precisamos de ter uma conversa.
Será que o CR é feliz? Dinheiro lá ele tem. Amor também não lhe falta. Coisas incríveis e o corpo perfeito ele conseguiu, e aqueles dentes não devem ter sido fáceis... Não, não deve ser. Se fosse feliz já tinha parado de bater todos os recordes no futebol, digo eu. Sim, é isso. Faltam-lhe recordes, com certeza. Ou acha que ainda não tem o dinheiro suficiente... Isso. Recordes e dinheiro são o problema.
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Eu acho que é tudo muito relativo. E sinceramente, não acredito que mesmo tendo tudo isto, a pessoa saiba o que é a verdadeira felicidade. Faz parte do ser humano. Sabem aquela anedota das nhanhas? Um certo dia estava um homem cá fora no alpendre com a mão no ar como se estivesse a apanhar qualquer coisa. A mulher pergunta-lhe: "Ouve lá, o que é que estás a fazer?" O homem responde: "Não sei, mas já lá vem outra". Isto praticamente sumariza esta nossa busca incessante pela felicidade, prazer, adrenalina, ou o que quer que seja.
Vá, isto sou eu a pensar convosco e a tirar as minhas próprias conclusões. De qualquer forma, mais para a frente teremos as respostas às nossas dúvidas. Pelo menos, foi para isso que me inscrevi.
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Ora, como não podia deixar de ser, foi feito um estudo sobre isso. Porque raio não somos felizes? Por um lado, pessoas disseram que a felicidade é genética e não pode ser alterada por qualquer outro factor como o dinheiro ou o amor. Por outro, pessoas dizem que sim, é tudo muito bonito, mas na verdade a vida não presta. Prega-nos partidas e há sempre qualquer coisa a acontecer.
Ambas as respostas estão ERRADAS, e há evidências científicas que corroboram. Estudaram até irmãos gémeos. Na verdade, os genes e as circunstâncias infelizes não são os únicos que participam na equação:

Pronto, a genética define metade da nossa felicidade. É certo que a epigenética existe, já falámos aqui sobre isso. Por exemplo, pessoas de raça negra sofrem mais por tudo o que passaram nas gerações anteriores, e chegam até a definir comportamentos modernos com base nisso. Então, metade da nossa felicidade dá-se com base no que os nossos antepassados passaram, o que não é muito bom para os portugueses.
Mas mesmo assim, há uma certa relatividade. O meu avô passou algum tempo na guerra. Amigos morreram ao lado dele, sofreu emboscadas, e conta muitas histórias sobre isso. No entanto, é a pessoa mais feliz que conheço à face da terra. Já o outro avô, que não foi à guerra e teve melhores condições financeiras durante toda a sua vida, não é tão positivo como o primeiro. Talvez seja mais uma vez a genética a pregar das suas.
Mas o que mais me surpreendeu no gráfico foram os 10% da "vida acontece". Ora, coisas como ganhar a lotaria e ter um bebé ou ficar paraplégico e viúvo, afinal não contam assim tanto para a nossa felicidade. O ser humano adapta-se muito facilmente, e estas coisas deixam de ter importância na nossa felicidade. Não é engraçado?
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O que é que sobra? Tudo o que está sob o nosso controlo. As nossas acções e pensamentos contribuem com 40% para a nossa felicidade. Coisas que podemos controlar! Não é o máximo?
Actividades intencionais têm um efeito muito poderoso na nossa felicidade, mais do que quaisquer circunstâncias que ocorram. São coisas que podemos trabalhar, queridos leitores.
Escusamos de tentar ganhar mais dinheiro e comprar coisas incríveis. A verdade exige muito menos de nós do que todas estas coisas que habitualmente queremos alcançar no futuro.
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Mas então um de vós no meio do grupo responde: "Ok, essas coisas científicas podem ser verdade para o resto das pessoas, mas EU serei realmente feliz com o emprego/salário/corpo perfeitos". A Laurie também tem uma resposta para isso.
Coisa irritante da nossa mente n.º 1: quando pensamos que a nossa mente nos entrega uma intuição, como por exemplo: "eh pá, vou sentir-me mesmo triste se tiver má nota no exame", então essa intuição passa a ser normativamente correta. Mas a verdade é que a nossa mente está sempre a apresentar-nos intuições sobre o que está errado e correto, tantas até que às vezes ficamos na dúvida. No exemplo da imagem com as duas linhas, a nossa intuição torna-se por vezes mais poderosa do que a instância verdadeira.
Mais um exemplo:
"Se uma bola de baseball e um taco custam 1,10€ juntos, mas o taco custa 1€ a mais do que a bola, quando custa a bola?"
A primeira coisa em que se pensa, intuitivamente, é que a bola custa 10 cêntimos, o que está errado. A bola custa 5 cêntimos, e o taco custa mais 1€ do que a bola, logo o preço da bola tem de estar incluído no preço do taco. Se a bola custasse 10 cêntimos, sobrariam apenas 1€, e não 1€ a mais do que a bola. Portanto, a bola custa 5 cêntimos, e o taco custa 1,05€.
E a maior parte das intuições que temos sobre a nossa felicidade, também estão erradas.

Por exemplo, de vez em quando bate o bichinho de jogar os Sims. É o jogo mais vendido a nível mundial, malta. Como é que uma miúda de 89 escapa a isto? E, quando bate, a Rita passa cerca de duas horas a instalar o jogo, porque sabem como é, todas aquelas expansões e objetos levam o seu tempo a instalar. E claro que instalo cada vez que jogo porque, para já, ocupa perto de 80 GB no pc e depois porque a vontade de jogar vem uma vez por ano, e então de alguma forma acabo sempre por desinstalar e voltar a instalar mais cedo ou mais tarde.
Isto tudo para vos dizer que enquanto instalo o jogo, a minha intuição é a de que "Uau! Há tanto tempo que não jogo, vai ser espectacular. É desta que não uso códigos e jogo normalmente. É desta que passo mesmo a jogar regularmente". Bate uma felicidade falsinha, daquelas... E a verdade é que nunca acontece. Nunca! Farto-me passado quase tanto tempo como o que passo a instalar. Enfim.
A maior parte dos objetivos que achamos que nos vão fazer felizes, não o fazem.
Vá, agora escrevam esta frase 100 vezes num caderno até interiorizarem.