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Rumo ao Minimalismo

A minha viagem ao minimalismo, desperdício zero e vegetarianismo - Estou quase, quase lá!

Rumo ao Minimalismo

A minha viagem ao minimalismo, desperdício zero e vegetarianismo - Estou quase, quase lá!

A ciência por trás da felicidade #5 - absolutismo vs relativismo

Rita (porque minimalistas há muitas), 18.09.19

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Resumindo, já sabemos que um bom emprego, muito dinheiro, coisas incríveis, amor verdadeiro e o corpo perfeito não têm qualquer impacto ou não contribuem assim tanto para a nossa felicidade. Todas estas coisas que achamos que nos farão felizes, não o fazem. Isto é ponto assente. O nosso cérebro diz-nos que queremos certas coisas, mas está errado e inebriado. No entanto, a generosidade e as nossas conexões sociais mudam a figura, conforme vimos ontem. 

Mas vamos ao que nos interessa por hoje.

Existem então algumas características irritantes da nossa mente, como falámos há uns dias. Coisa irritante da nossa mente n.º 1: A intuição. As nossas maiores intuições estão muitas vezes erradas. Tanta vez que vejo gente espalhar-se em programas de perguntas por causa da maldita. 

Então e mais?

Coisa irritante da nossa mente n.º 2: Nós não pensamos em termos absolutos. Não pensamos na verdade verdadinha e absoluta das coisas, e ao invés disso, procuramos argumentos em termos relativos. Estamos sempre a julgar em relação a diferentes pontos de referência. 

O que é um ponto de referência? É uma situação padronizada (pouco relevante) com a qual comparamos situações. Vejam a imagem em baixo:

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Se acompanharam as minhas publicações anteriores, já sabem que os círculos laranja são do mesmo tamanho. De qualquer forma, os nossos olhos e a nossa intuição diz-nos que o do lado direito é maior. Ora, os pontos azuis, os nossos pontos de referência, fazem com que nós achemos o laranja do lado direito, maior, porque os azuis são muito mais pequenos relativamente ao do centro. E vice versa.

Neste caso, estamos a pensar em termos relativos e não absolutos. Na presença de pontos de referência, vemos as coisas de forma diferente e mexe com a nossa argumentação e forma de ver as coisas.

Outro exemplo, quando alguém fala da condição médica de um sénior, imaginemos um AVC. Alguém contradiz "Ah, mas o senhor Joaquim também teve, e está muito pior - até deixou de falar por um tempo", como se a primeira situação não tivesse tanta importância. Na realidade, a situação "mais irrelevante" é a do Sr Joaquim que na altura foi alvo de preocupação, mas já está diagnosticado, medicado e entretanto a fala voltou. Ora, é como se o ser humano estivesse programado para relativizar tudo e todos em determinadas situações. Confesso que é uma das coisas que mais me irrita neste mundo e não me sabia expressar. Agora já sei. 

Mas esta coisa da relatividade, mexe mesmo com a nossa felicidade? Porquê?

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Vamos então a uma história verídica. Vejamos na imagem em cima, uma das muitas medalhas de ouro que o Michael Phelps ganhou. A felicidade está lá, obviamente. E agora em baixo:

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O rapaz que ganhou a medalha de prata está feliz, mas não tanto como o Michael Phelps. Porquê? Porque usa a medalha de ouro como referência. Mas aqui a questão muda de figura quando vemos a imagem de baixo:

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O rapaz que ganha a medalha de bronze tem um ponto de referência, que é não ganhar medalha nenhuma. Para ele, o facto de ter ganho uma medalha é extasiante e nem pensa noutra coisa. Está estampado na sua cara. Se o seu ponto de referência fosse a medalha de ouro, estaríamos perante uma pessoa nitidamente menos feliz que os outros dois. 

E a verdade é que a imagem é só uma parte do estudo. Durante os jogos olímpicos, colocaram câmaras em todo o lado. No momento em que os participantes sabiam da sua pontuação e no momento em que ganhavam as medalhas. Os que ganharam medalhas de bronze apresentavam um grau de felicidade razoavelmente maior do que os que ganhavam medalhas de prata. Impressionante, não é? Não é o valor da medalha que ganhámos, é o valor da que podíamos ter ganho, que importa. 

Em Portugal temos muito aquela coisa do "Vá, pergunta. O "não" é sempre certo". E se o "não" fosse o nosso ponto de referência? "Não, não te dou um gelado". "Não, não vais ter um aumento nos próximos anos". "Não, não passaste no exame". Interessante como o povo se conforma com grande parte das medidas de austeridade, mas depois em coisas simples baixa o seu nível de felicidade. 

E agora que sabemos isto tudo, um bom emprego, muito dinheiro, coisas incríveis, amor verdadeiro e o corpo perfeito só não causam impacto na nossa felicidade porque vemos estas coisas como pontos de referência e não pelo valor que elas valem. Olhamos sempre para coisas que a nosso ver, são melhores do que o que já temos. Daí a infelicidade das pessoas que recebem aumentos e que perdem peso. Há sempre alguém com mais e melhor. 

Num estudo de 1999, os autores disseram que por cada dólar que sobe o nosso salário, acabamos por querer mais 1,40 no futuro. É um poço sem fundo.

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Mas o pior ainda está por dizer. Acontece que a pior forma de relativismo é quando o fazemos em relação a outras pessoas, a chamada comparação social. Em 1996, estudaram a satisfação de emprego em 5000 trabalhadores ingleses, e o que descobriram foi que a mesma diminuía à medida que a comparação aumentava. Se os nossos colegas de trabalho ganham mais, a nossa probabilidade de estar menos feliz com o nosso trabalho é maior. 

Em 1998, perguntaram a estudantes de Harvard "Qual é o salário que tu preferes?" 

Opção 1: Ganhar 50 000, enquanto os outros ganham 25 000;

Opção 2: Ganhar 100 000, enquanto os outros ganham 250 000.

O leitor pensaria que o pessoal fosse escolher a opção 2, afinal é o dobro do salário da opção 1. Mas desenganem-se. 56% das pessoas preferiram a opção 1. 

As pessoas preferem receber metade do salário por saberem que vão ganhar mais do que os outros. 

E se vos dissesse que estando desempregadas num local onde há normalmente pessoas desempregadas, não nos parece ser assim tão mau? Estamos tão envolvidos em comparações sociais, que mesmo em situações extremas de desemprego nos deixamos afectar pelas pessoas à nossa volta. 

E se vos dissesse que quanto mais horas passamos em frente à TV, mais nos comparamos relativamente a pessoas com maior salário? Programas como Keeping Up with the Kardashians , The Real Housewives of Beverly Hills, ou na nossa portuguesa que passam o dia a dizer 760! podem estar na origem disto. E mais! Noutro estudo, por cada hora que as pessoas gastam a ver TV, gastam mais 4$/semana em despesas de casa. 

Eu revejo esta situação na faculdade, quando os alunos recebem as pautas das notas. Sabendo tudo isto que acabei de aprender, agora consigo identificar e separar as pessoas felizes com as suas próprias vidas e as que não são assim tanto. As pessoas realizadas e de sorriso na cara, e as que não são. Mesmo depois de saírem da faculdade e pensando um pouco na sua forma de estar e de ver a vida atualmente, são as que menos se importavam com as notas apesar de terem acabado o curso como todos os outros. E mesmo não tendo convivido com algumas pessoas no tempo de faculdade, nota-se logo quem não está nem aí para o que os outros pensam, fazem ou ganham. As pessoas são genuinamente mais felizes. 

É impressionante, como esta nossa máquina funciona. 

Outros estudos foram feitos com base na comparação. Por exemplo, mulheres que vêem fotografias de modelos em revistas (apesar de serem todos photoshopadas), ou homens que comparam a sua felicidade com a sua esposa antes e depois de olharem para estas mesmas fotos, ou então adolescentes que usam as redes sociais. Todas diminuem o nível de felicidade. Todos os estudos apresentam a mesma tendência. É terrível. 

A ciência por trás da felicidade #3 - E afinal?

Rita (porque minimalistas há muitas), 11.09.19

Ora, vejamos. Se ter um bom emprego, muito dinheiro, coisas incríveis, amor verdadeiro e o corpo perfeito não impactam verdadeiramente a nossa felicidade, o que é que fazemos? Afinal, o que é que temos de fazer para sermos felizes?

Uma coisa é certa. Todos os estudos que apresentei não foram feitos com as mesmas pessoas, e se um indivíduo tem muito dinheiro mas não tem um corpo perfeito, pode ser que seja infeliz por isso. Se algum dos leitores conhecer alguém que tenha um bom emprego, muito dinheiro, coisas incríveis, amor verdadeiro e o corpo perfeito, avise-me, porque precisamos de ter uma conversa.

Será que o CR é feliz? Dinheiro lá ele tem. Amor também não lhe falta. Coisas incríveis e o corpo perfeito ele conseguiu, e aqueles dentes não devem ter sido fáceis...  Não, não deve ser. Se fosse feliz já tinha parado de bater todos os recordes no futebol, digo eu. Sim, é isso. Faltam-lhe recordes, com certeza. Ou acha que ainda não tem o dinheiro suficiente... Isso. Recordes e dinheiro são o problema. 

Eu acho que é tudo muito relativo. E sinceramente, não acredito que mesmo tendo tudo isto, a pessoa saiba o que é a verdadeira felicidade. Faz parte do ser humano. Sabem aquela anedota das nhanhas? Um certo dia estava um homem cá fora no alpendre com a mão no ar como se estivesse a apanhar qualquer coisa. A mulher pergunta-lhe: "Ouve lá, o que é que estás a fazer?" O homem responde: "Não sei, mas já lá vem outra". Isto praticamente sumariza esta nossa busca incessante pela felicidade, prazer, adrenalina, ou o que quer que seja.

Vá, isto sou eu a pensar convosco e a tirar as minhas próprias conclusões. De qualquer forma, mais para a frente teremos as respostas às nossas dúvidas. Pelo menos, foi para isso que me inscrevi. 

Ora, como não podia deixar de ser, foi feito um estudo sobre isso. Porque raio não somos felizes? Por um lado, pessoas disseram que a felicidade é genética e não pode ser alterada por qualquer outro factor como o dinheiro ou o amor. Por outro, pessoas dizem que sim, é tudo muito bonito, mas na verdade a vida não presta. Prega-nos partidas e há sempre qualquer coisa a acontecer. 

Ambas as respostas estão ERRADAS, e há evidências científicas que corroboram. Estudaram até irmãos gémeos. Na verdade, os genes e as circunstâncias infelizes não são os únicos que participam na equação:

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Pronto, a genética define metade da nossa felicidade. É certo que a epigenética existe, já falámos aqui sobre isso. Por exemplo, pessoas de raça negra sofrem mais por tudo o que passaram nas gerações anteriores, e chegam até a definir comportamentos modernos com base nisso. Então, metade da nossa felicidade dá-se com base no que os nossos antepassados passaram, o que não é muito bom para os portugueses.

Mas mesmo assim, há uma certa relatividade. O meu avô passou algum tempo na guerra. Amigos morreram ao lado dele, sofreu emboscadas, e conta muitas histórias sobre isso. No entanto, é a pessoa mais feliz que conheço à face da terra. Já o outro avô, que não foi à guerra e teve melhores condições financeiras durante toda a sua vida, não é tão positivo como o primeiro. Talvez seja mais uma vez a genética a pregar das suas. 

Mas o que mais me surpreendeu no gráfico foram os 10% da "vida acontece". Ora, coisas como ganhar a lotaria e ter um bebé ou ficar paraplégico e viúvo, afinal não contam assim tanto para a nossa felicidade. O ser humano adapta-se muito facilmente, e estas coisas deixam de ter importância na nossa felicidade. Não é engraçado? 

O que é que sobra? Tudo o que está sob o nosso controlo. As nossas acções e pensamentos contribuem com 40% para a nossa felicidade. Coisas que podemos controlar! Não é o máximo?

Actividades intencionais têm um efeito muito poderoso na nossa felicidade, mais do que quaisquer circunstâncias que ocorram. São coisas que podemos trabalhar, queridos leitores.

Escusamos de tentar ganhar mais dinheiro e comprar coisas incríveis. A verdade exige muito menos de nós do que todas estas coisas que habitualmente queremos alcançar no futuro. 

Mas então um de vós no meio do grupo responde: "Ok, essas coisas científicas podem ser verdade para o resto das pessoas, mas EU serei realmente feliz com o emprego/salário/corpo perfeitos". A Laurie também tem uma resposta para isso. 

Coisa irritante da nossa mente n.º 1: quando pensamos que a nossa mente nos entrega uma intuição, como por exemplo: "eh pá, vou sentir-me mesmo triste se tiver má nota no exame", então essa intuição passa a ser normativamente correta. Mas a verdade é que a nossa mente está sempre a apresentar-nos intuições sobre o que está errado e correto, tantas até que às vezes ficamos na dúvida. No exemplo da imagem com as duas linhas, a nossa intuição torna-se por vezes mais poderosa do que a instância verdadeira. 

Mais um exemplo:

"Se uma bola de baseball e um taco custam 1,10€ juntos, mas o taco custa 1€ a mais do que a bola, quando custa a bola?"

A primeira coisa em que se pensa, intuitivamente, é que a bola custa 10 cêntimos, o que está errado. A bola custa 5 cêntimos, e o taco custa mais 1€ do que a bola, logo o preço da bola tem de estar incluído no preço do taco. Se a bola custasse 10 cêntimos, sobrariam apenas 1€, e não 1€ a mais do que a bola. Portanto, a bola custa 5 cêntimos, e o taco custa 1,05€. 

E a maior parte das intuições que temos sobre a nossa felicidade, também estão erradas.

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Por exemplo, de vez em quando bate o bichinho de jogar os Sims. É o jogo mais vendido a nível mundial, malta. Como é que uma miúda de 89 escapa a isto? E, quando bate, a Rita passa cerca de duas horas a instalar o jogo, porque sabem como é, todas aquelas expansões e objetos levam o seu tempo a instalar. E claro que instalo cada vez que jogo porque, para já, ocupa perto de 80 GB no pc e depois porque a vontade de jogar vem uma vez por ano, e então de alguma forma acabo sempre por desinstalar e voltar a instalar mais cedo ou mais tarde.

Isto tudo para vos dizer que enquanto instalo o jogo, a minha intuição é a de que "Uau! Há tanto tempo que não jogo, vai ser espectacular. É desta que não uso códigos e jogo normalmente. É desta que passo mesmo a jogar regularmente". Bate uma felicidade falsinha, daquelas... E a verdade é que nunca acontece. Nunca! Farto-me passado quase tanto tempo como o que passo a instalar. Enfim.

A maior parte dos objetivos que achamos que nos vão fazer felizes, não o fazem. 

Vá, agora escrevam esta frase 100 vezes num caderno até interiorizarem. 

 

A ciência por trás da felicidade #2 - as coisas materiais, o amor e o corpo perfeito.

Rita (porque minimalistas há muitas), 06.09.19

Na publicação anterior falámos dos erros e mitos mais comuns acerca do nosso "emprego ideal" ou do facto de querermos ter sempre mais dinheiro - e que isso de alguma forma nos traz felicidade. BALELAS. Sim, o dinheiro traz alguma felicidade, mas só até ao ponto de termos todas as nossas necessidades básicas atendidas. E não, não estou a falar do smartphone que sai para a semana nem do novo concept que a BMW lançou para exposição. Pronto, pronto, até aqui já sabemos. Já dizia o Jim Carrey que só queria que toda a gente fosse milionária para perceber que não é esse o caminho.

Mas e o amor? Aquele verdadeiro. O que nos faz ir a uma demonstração da bimby, montar uma horta e ficar endividados com o banco para o resto da vida? Pois é... Também não é o que parece. Ele de facto, existe, mas não tem grande impacto na felicidade. Não depois de um anito ou dois. 

Ora vejamos.

Quanto às "coisas", a Professora Laurie faz um enquadramento muito engraçado do número de vezes que uma marca de carros ou um tipo de bebida aparece em músicas. Aqueles que são os nossos objectivos materiais, as coisas que supostamente nos trarão felicidade quando as comprarmos. 

A verdade é que um estudo feito entre 1976 e 2003, revela que as pessoas que tinham uma tendência materialista no início, acabaram por ser as que tinham menos satisfação de vida em 2003. E mais, por passarem 20 anos à procura destas coisas, acabaram por apresentar mais problemas mentais do que as pessoas que não tinham aspirações materiais. 

Quanto ao amor e ao estudo que decorreu durante 15 anos - as pessoas que se casaram, são ou não são mais felizes? Sim! A sua felicidade aumentou, que alegria! Durante um ano ou dois. Depois disso, a felicidade é a mesma do que as pessoas que não estão casadas. Chama-se o "efeito da lua de mel". Isto, obviamente, para os chamados "casamentos felizes". Os infelizes têm problemas bem maiores do que a diminuição da felicidade, I guess. Portanto, não é por acaso que se fala das crises dos 2, 5 ou 7 anos de relação. 

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E ter um corpo perfeito, ajuda nesta coisa da felicidade? A cara perfeita sem borbulhas e com sobrancelhas depiladas por um ninja asiático?

Óbvio que não, aliás, todas as redes sociais dizem que sim senhor. Ter 40 quilos e um bronze que dura o ano inteiro é que importa. (Newsflash: isso importa para algumas pessoas, não todas. De facto, gostam de falar deste tipo de magreza como se a pessoa fosse um pedaço de carne. Mas quando é para casar... Ai, aí já estamos a falar de outro tipo de corpo. Um que carregue um bebé durante 9 meses e que não se desmanche a subir um degrau. Estão a perceber, não é?)

Todos aqueles cenários de beleza e de vida espampanante que a maioria das pessoas apresenta nas redes sociais é que trazem felicidade e uma pessoa esfalfa-se a trabalhar para conseguir tudo aquilo. Depois quando consegue, já passaram 20 anos e já é tarde. Surgem as doenças, a velhice e os arrependimentos. 

Pronto, em 2014 foi lançado um estudo de acompanhamento de 2000 pessoas obesas e dividiram-nas em três grupos: perda de peso, aumento de peso e o mesmo peso. Ora então, o que aconteceu foi que a percentagem de pessoas com humor depressivo aumentou em todos os casos. Mais ainda nos indivíduos que perderam peso durante o processo:

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Noutro estudo sobre cirurgia estética, chegou-se à conclusão de que as pessoas que querem de alguma forma mudar o seu corpo, têm mais tendência para suicídio, abuso do álcool ou outro tipo de problemas de conduta. Estes factores pioram depois da cirurgia:

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Portanto, até aqui sabemos que nada do que foi dito até agora aumenta significativamente a nossa felicidade. Até eu começo a ficar curiosa com isto. 

Não percam os próximos episódios, porque nós também não!

 

A ciência por trás da felicidade #1 - emprego e dinheiro

Rita (porque minimalistas há muitas), 04.09.19

Olá malta!

Hoje venho falar-vos de um curso online que estou a fazer na Universidade de Yale, "A Ciência do Bem-Estar".

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"A Ciência do Bem-Estar" tem uma estrutura curricular muito interessante e qualquer pessoa pode fazer o curso de forma gratuita, se não quiser pagar o certificado de participação.

Para quem não conhece, a plataforma Coursera é uma óptima referência para quem quer expandir os seus horizontes, e para quem quer ter acesso a milhares de cursos leccionados pelas melhores universidades do mundo. A melhor parte: é tudo gratuito! Existe a opção de obter o certificado oficial para quem quiser enriquecer o currículo, que no fim de contas nem é assim tão caro.

Ora, "A Ciência do Bem-Estar" é lecionado por Laurie Santos, Professora de Psicologia e Diretora da Faculdade Silliman em Yale, e mostra os estudos científicos mais impressionantes que vocês possam imaginar sobre a felicidade e o que afinal nos move e nos faz feliz. Ao longo destes posts vou comentar convosco os principais resultados e conclusões. Ao fim e ao cabo, acabam por tirar o curso comigo. 

Um resumo do que se aprende e dos principais resultados da ciência:

Atenção que isto está cientificamente provado em diversos estudos feitos ao longo das últimas décadas. Não são balelas. Para quem estiver interessado em descobrir mais, aconselho muito fazerem o curso. Os vídeos são curtos e interessantes, e todas as referências e estudos de que falo aqui, estão no conteúdo do curso.

A falácia de G.I. Joe.ideia errada de que "saber" é metade do caminho andado. Não é metade do caminho nem é o suficiente para mudar comportamentos. Um exemplo muito simples: vejam a imagem de baixo. É uma ilusão de óptica, sabemos que no fundo as linhas têm o mesmo comprimento, mas não é possível ensinar os nossos olhos a ver as linhas tal como são. Continuam a parecer-nos diferentes. Certo? Então, "saber" não é suficiente para mudar o nosso comportamento. 

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Um bom emprego. Perguntaram a recém graduados qual seria a descida na sua felicidade, caso não conseguissem passar numa entrevista de emprego. A maioria respondeu que depois da notícia, a felicidade cairia cerca de 2.10 pontos em 10, quando na realidade, depois de acontecer, desceu apenas 0.68 pontos. Ok, e se a decisão de contratar fosse muito injusta para eles, como se a empresa estivesse a perder o melhor candidato? A média previa uma descida de 1.9 mas a descida real foi de 0.0 pontos. Na cabeça deles, lá arranjaram uma desculpa qualquer, e não aqueceu nem arrefeceu.

Outro inquérito revelou que o que as pessoas querem num emprego é um bom salário. Mas então, o que é um bom salário? Que número é suficiente para nos fazer feliz? E o que é ganhamos agora? 5 000€ por ano? 10 000€? 100 000? A verdade é que depende do que ganhamos. E em todos estes patamares as pessoas queriam sempre mais. Nunca é suficiente. Nos EUA, as pessoas gastaram 70 150 000 000$ em raspadinhas no ano de 2015. Isto é mais do que livros, música, bilhetes de cinema, de desporto e videojogos juntos. 

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Um outro estudo que fizeram em mais de 300 universidades mostra como os "ideais" de vida mudaram nas últimas décadas. A figura de cima mostra os principais resultados de um inquérito nacional (mais uma vez nos EUA) feito todos os anos entre 1967 e 2005. E então o que é que para "nós" é mesmo muito importante na vida - estar bem financeiramente ou desenvolver uma filosofia de vida significativa? Os papéis invertem-se, e hoje, claramente, o dinheiro é mais importante. 

Muitos estudos foram ainda feitos sobre a correlação entre o salário e a satisfação de vida. Para terem uma noção, uma correlação de 1 significa que a satisfação de vida aumenta conforme o salário que temos e vice versa, sem qualquer outro tipo de interferência e factor. Na realidade, a correlação entre uma coisa e outra é de 0,10, a média entre diversos países analisados. Nenhum deles apresentou uma correlação maior do que 0,24. Houve até valores negativos, como no Brasil e na Finlândia.

O estudo não foi feito em Portugal, mas a correlação é provavelmente muito alta, derivada principalmente à percentagem da população a salário mínimo e das nossas crises constantes e falta de condições laborais. A vida nos EUA e no norte da Europa é muito melhor do que a nossa, não há dúvidas disso. No entanto o Brasil também tem muita pobreza e o povo é feliz de qualquer jeito. Afinal é de onde vem o samba, não é? E nós cá temos o nosso Fado. 

A verdade é que o mesmo estudo foi feito comparando as nações ricas às pobres, e enquanto a felicidade em povos ricos se manteve constante, a felicidade nos povos mais pobres aumentou muito, conforme vêem na imagem em baixo. O acesso aos serviços a que muitos estamos habituados, nomeadamente água canalizada, saneamento ou rede elétrica, fazem diferença na escala da felicidade para quem não os tem. E portanto, a partir do momento em que temos dinheiro para as nossas necessidades básicas, o dinheiro não nos traz muito mais felicidade (ao contrário do que o marketing diz).

Outros estudos revelam ainda que a partir do momento em que temos dinheiro para as nossas necessidades básicas: não existe diminuição de stress, não existe alteração em sensações e emoções positivas (rir, felicidade, divertimento diário) nem diminuem as preocupações ou tristezas.

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A verdade é que com o acesso a toda a tecnologia que temos hoje em dia, todas estas "chupetas" que nos entretêm, a felicidade não aumentou. Pelo contrário:

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Comparando com a geração da década de 40, os novos adultos de hoje em dia crescem com muito mais dinheiro, menor felicidade e maior risco para a depressão e patologias sociais. Isto vai contra às melhorias de vida e condições para o bem-estar que têm surgido nas últimas décadas. Não faz sentido nenhum. 

Eu gostava muito de colocar aqui todos os estudos e resultados do resto do curso, mas o texto já vai longo. Ao longo dos próximos dias irei fazer algumas publicações a respeito deste assunto. 

 Até breve! 

minimalismo para iniciantes

Rita (porque minimalistas há muitas), 02.09.19

Olá malta. 

Sinto que já devia ter feito esta publicação há muito tempo. Existem algumas dúvidas sobre a sua verdadeira essência e para muita gente, o minimalismo é um estilo de arquitetura ou de decoração. Para outros é tabu ou alvo de chacota.

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Para começar, o minimalismo não é um objetivo. É um estilo de vida. Trata-se de simplificar para que possamos aproveitar coisas e momentos mais importantes. Sim, pode refletir-se num estilo de decoração, como aliás acabará por acontecer inevitavelmente. Mas não só.

O minimalismo pode inicialmente surgir após uma vontade imensa de "destralhar" a casa ou depois de ter visto um documentário sobre o assunto. Nem precisa de ser direto, mas por uma questão ambiental também. Existem por aí muitos documentários porreiros (o netflix é um bom começo).

No meu caso foi o "minimalism", um documentário sobre as coisas importantes. Deu-se um clique e no próprio dia comecei a descartar e a dar coisas que não precisava.

Coisas que eu achava que precisava, mas que detestava. Os tapetes e os cortinados foram os primeiros. No caso dos tapetes, eu sempre disse que o chão dá muito menos trabalho a lavar do que os tapetes. Para além de serem objetos muito perigosos para os meus pés. Hoje, vivo muito melhor sem eles. Tenho um para usar na cozinha mas só para quando se faz comida ou se lava loiça para não andarmos a sapatinhar, depois arruma-se

Quanto aos cortinados, não sei porquê, mas irritam-me. Só tenho na sala e no quarto. E tenho no quarto porque o namorado lá me convenceu a pôr, depois de um ano de estarmos a morar nesta casa. É um rés-do-chão, e passamos a maior parte do nosso tempo na sala, logo os cortinados valem a pena por uma questão de privacidade e para termos alguma luz natural. Cortinados que já vinham com a casa (diga-se de passagem - os da sala, não os do quarto).

Depois, foram estas coisas todas. Tenho de voltar a destralhar um pouco, já acumulei algumas delas. Vocês sabem - CD's, toalhas de banho para 40 pessoas, panos de cozinha para um exército inteiro, etc.

Uma dica é dizer às pessoas para não vos oferecerem "coisas" no natal ou nos aniversários. Meias tudo bem, mais cedo ou mais tarde acabamos por precisar delas, mas toalhas e panos, normalmente duram a vida toda ou grande parte dela. Se as pessoas tiverem mesmo de dar alguma coisa, peçam antes experiências (um jantar, um bilhete de cinema ou de concerto) ou coisas que precisem mesmo para casa. Coisas que não tenham e que fazem falta. 

Mas afinal quem é que gosta de chegar ao fim do mês sem dinheiro na mão? Sabiam que o minimalismo resolve o problema?

Comidinha caseira, um guarda roupa simples com cores neutras, sem tralha em casa (que só dá trabalho a limpar) e passar uma tarde com a família em vez de no shopping são algumas das escolhas que podem fazer. 

Mais uma coisa, não adianta dizer-vos que coisas devem destralhar em casa se não souberem o que o minimalismo representa. É preciso fazer o contrário. Quando compreenderem a sua essência, o destralhe acontece naturalmente. A pessoa fica muito mais consciente quanto ao seu consumo e pensa duas vezes se vale a pena levar algum objeto para casa ou não.

Um objeto tem de servir algum propósito (se não mais) e faz parte das responsabilidades do seu portador perceber até que ponto é que lhe é útil. Não se sintam culpados por terem qualquer coisa em casa que não vos traz valor ou que simplesmente não gostam mais. Trecos que vos tenham sido dados no casamento ou postais que vos enchem uma gaveta, por exemplo.

Em primeiro lugar, a pessoa que vos deu isso já não se lembra, nem sequer se importa se guardam ou não. A verdade é que só o facto de vos ter dado alguma coisa, aliviou o seu estado de espírito e pouco importa o que vocês fazem com o objeto. Aqui fala mais alto o consumismo e a obrigatoriedade de ter de comprar alguma coisa, como se fosse um gesto de dizer o quão essa pessoa nos aprecia e gosta de nós.

É mais fácil comprar um jarro para pôr num canto da casa do que dizer "amo-te".

Não se esqueçam, menos é mais. É poder gastar o dinheiro em coisas que realmente importam, como fazer uma viagem grande para estar em família ou ir às compras para fazer uma churrascada com amigos em casa. É poder poupar mais dinheiro para algum problema que surja. É poder pagar créditos antecipadamente. É poder não gastar esse dinheiro em coisas supérfluas, tipo um vestido diferente para cada ocasião ou aquele cortador de legumes magnífico que aparece na TV. 

Não se esqueça que tudo o que não pode fazer nesta vida, fará na próxima. Deixe de perseguir objetivos inatingíveis e contente-se com o que tem. Não perca 80 horas semanais no emprego para poder comprar o seu carro ou a sua casa de sonho. Contente-se com o teto que tem. Evite que a criança que tem em casa cresça desapegada de si.

“OWNING LESS IS GREAT. WANTING LESS IS BETTER.”

Ter menos é bom. Querer menos é melhor.

Joshua Becker, Becoming Minimalist

  "Ame as pessoas e use os objectos. Porque o oposto nunca funciona" - The minimalists

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Ser minimalista no século XXI.

Rita (porque minimalistas há muitas), 27.08.19

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Sim, porque se pensarmos no tempo dos nossos avós, toda a gente o era. Pelo menos em Portugal. Não pelos motivos mais felizes.

Muitas vezes me conta histórias o meu avô, do tempo em que ia descalço para a escola. Do tempo em que o seu pequeno almoço era uma fatia de pão atrasado com aguardente queimada. Ou quando comia o rabo de uma sardinha, por ser o mais novo de 3 irmãos. Mais tarde, foi dado como morto na Guiné e não se conseguia casar com a minha avó quando veio para cá. 

Coisas impensáveis nos dias que correm. Não, hoje os problemas da sociedade são outros. 

Hoje queremos o smartphone que sai no mês que vem. Queremos o que os outros têm, que por sua vez obtiveram porque alguém lhes mostrou que tinha. Queremos ser mais felizes que o vizinho - que todos os dias nos apresenta um sorriso e se nota que é feliz, como se tal felicidade fosse causada pelo carro topo de gama que tem na garagem, ou mesmo pela casa de férias nas Bahamas.

Não, minha gente. O vizinho provavelmente acabou de ensinar o neto a andar de bicicleta. O vizinho descobriu que a filha está grávida pela segunda vez e está a imaginar-se a pegar na pessoinha quando vier cá para fora. Ou então a senhora sua esposa saiu do hospital já fora de perigo, depois de uma longa temporada de exames médicos. 

Estamos sempre descontentes com as nossas circunstâncias. Só para terem uma ideia, há gente que faz créditos de 25 anos com prestações mensais de 300€ para comprar um BMW - não estou a brincar. 

Estamos descontentes com a "miséria" do nosso salário. Não chega nem de perto para as tecnologiquisses ou para a viagem dos nossos sonhos. Não chega para comprar a roupa que queremos. Ora, não chega para nada. 

No entanto, o dinheiro estica e vamos sobrevivendo de uns meses para os outros. Que remédio, pois bem. Temos um teto que nos abriga da noite. Temos comida na mesa. Temos cuecas e meias lavadas para vestir todos os dias. Ou pelo menos, eu dou graças por ter tudo isto. 

Vamos lá ver, eu não sou praticante. Não sou religiosa. Sou uma mulher da ciência e acredito que as circunstâncias são criadas por nós ou são simplesmente coincidências. O mundo é pequeno, as coisas acontecem. No entanto, acredito que tudo o que nos acontece se reflete mais tarde e naquilo que é o nosso destino. 

Dou graças aos meus pais por me terem dado uma educação de valor, por me terem pago um curso superior e por me terem apoiado incansavelmente quando quis mudar a meio do primeiro ano. Dou graças ao centro de emprego que me encontrou o primeiro estágio e me permitiu que não parasse de trabalhar desde então. 

Dou graças à proposta de doutoramento que me permitiu passar por uma mudança radical e por me ter apresentado o minimalismo. Por me ter deixado pensar por mim mesma, que afinal vai contra a maré. Por me ter deixado expandir os meus horizontes e por me ter permitido estudar a filosofia.

Ser minimalista no século XXI é saber dizer que não. É saber votar tanto no governo como nas lojas onde fazemos as nossas compras.

É saber que mais é menos. É saber distinguir entre o que precisamos e o que queremos só para nos encher o ego. É preferir passar uma noite em casa a jogar jogos de tabuleiro com amigos e passar uma tarde a ler um bom livro em casa.

O minimalismo não é ter menos de 100 coisas ou dormir no chão. Não é andar de sofá em sofá com uma mochila às costas nem usar o mesmo par de calças o ano inteiro. Não me canso de dizer isto. Há quem o faça. Cada um vive o minimalismo como quer e não há regras.

Eu não o faço. Tenho a minha casa, tenho mais de 100 coisas e não durmo no chão. Tenho serviço de TV e internet, tenho uma bimby, vou a restaurantes e gosto de passear. Não ando por aí a dizer que sou minimalista, só as pessoas que lêem este blog sabem que o sou. E felizmente não se metem comigo a respeito disso. 

O minimalismo faz parte de mim. Acordou-me. Dou graças ao mundo por me ter mostrado o conceito e por fazer de mim uma pessoa muito mais completa do que era há uns anos atrás. 

Bom, isto tudo para dizer que há quem o faça e quem consiga remar contra a maré do consumismo. Não é preciso andar sempre em cima do acontecimento para ser feliz. Aliás, é precisamente o contrário. 

Faça uma pausa. Tire 15 minutos do seu dia e olhe ao redor. Porque é que está nesse lugar?

. Talvez esteja numa esplanada a beber um café ao final da tarde. Não é bom, poder tomar esse café e estar um sol de meter inveja?

. Ou então está no emprego, sentado(a) à secretária em frente do computador. Eu prometo que não digo ao patrão. Mas, e que tal? Poder estar num sítio que lhe dá dinheiro em troca do seu serviço?

. Está em casa, sentado(a) no sofá? Com o marido ou a esposa ao lado e com o filho a brincar no chão da sala? Ora que glorioso. 

Agora pegue num bloco de notas e escreva os motivos da sua gratidão. 

Faça isto todos os dias até se habituar a ver o mundo com outros olhos. Até se gratificar por estar sentado(a) na sanita e poder estar o tempo que quiser. Em Auschwitz e Birkenau, isso não era possível.

E agora vem o momento da propaganda. Viva ao minimalismo. Viva à expressão de liberdade e à consciencialização do povo. Deixem-se de coisas e abracem o que têm. 

Fui ao casino.

Rita (porque minimalistas há muitas), 19.08.19

Cassino, Jogo De Azar, Máquinas Caça Níqueis

Oh, se fui!

E não é que não gostei nada da experiência? Quero dizer, eu até entrei com 10€ e saí com 50€, devia estar a sentir-me bem com isto de ganhar dinheiro, mas caramba - não gostei nada daquilo. 

Primeiro, porque toda a gente tem as caras viradas para as máquinas e para os jogos de mesa como se não existisse mais nada no mundo e como se estivessem com uma dor de barriga de não chegar a tempo da casa de banho. Parecia que estava num episódio de Black Mirror.  Além do mais, têm de tal ordem uma poker face que até enerva. Estejam nas máquinas ou na roleta. 

Segundo, porque é tudo tão escuro e com cores de discoteca e de bares noturnos, que fazem lembrar as danças de varão que aparecem nos filmes. Um ambiente super pesado. Não pensem que vão para lá divertir-se, porque mesmo que tenham uma conta bancária que pague 500 Ronaldos e Beyoncés, acho que nunca ninguém gostou de gastar dinheiro à bruta. Ricos não se fazem em casinos. 

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Terceiro, porque pela primeira vez na minha vida senti aquelas-más-energias-que-só-pessoas-estranhas-é-que-sentem a tal ponto de eu ter ficado com um peso muito pesado no estômago. Comentei até com o meu namorado. Sabem aquela sensação de saberem que vão ser despedidos do emprego, de não terem qualquer prospectiva de trabalho nos próximos 5 anos e estão prestes a  perder a casa e a entrar no gabinete dos recursos humanos? Foi assim que me senti. Isto só passou umas duas horas depois de ter saído de lá. 

Ora, pensem comigo. De que outro modo o casino conseguia pagar ordenados a dezenas de pessoas se os clientes ganhassem dinheiro lá dentro? Juro-vos que vi umas 40 pessoas a trabalhar lá dentro.

Outra coisa, para eu sair de lá com 50€ foi preciso alguém perder 100€. Alguém que não é o dono do casino, obviamente.

Bom, eu fui porque me convidaram. Por uma questão de convivência entre amigos e porque nunca lá tinha estado  nem nunca me tinha ocorrido tal coisa. A verdade é que detestei.

Fica aqui uma das minhas aventuras como minimalista num mundo que não meu, quase como se fosse de outra galáxia. Acho que me sentia mais confortável em Marte. 

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